Precisamos da sabedoria das gerações da calma, da reflexão, do cházinho para dor, da oração, da natural higiene do sono, da valorização do que já se tem.

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Por Mari Mel Ostermann

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Voo curto, 50 minutos. Uma folheada na revista, meio podcast e estaria em casa.
Do meu lado, uma senhora, daquelas com cara de vovó de antigamente: cabelos grisalhos presos num rabo baixo, blusa de crochê feita à mão, assim como sua bolsa. Que fofinha esta senhorinha, tão simples, pensei ingênua. Será que tem medo de avião?

“Lá vamos nós voar espremidinhas nesta latinha de sardinha” foi o meu olá, tentando ser fofinha como ela. Não paramos de conversar. Ela, boa contadora de histórias e eu, boa ouvinte quando quero. Vi fotos dos seus 7 filhos, 18 netos e 4 bisnetos, que mostrou cheia de orgulho. Perguntei se ela era casada. A resposta honesta sobre a sua separação narrou diálogos que eu desejei que todas as mulheres tivessem a coragem de sustentar. Eva tinha a firmeza e a serenidade de quem não carrega dúvidas. Quão linda era agora esta mulher cheia de histórias nascida do ventre.

– Que bom que a senhora está cheia de saúde e liberdade para viajar!

– Minha filha, esses dias o médico me perguntou: a senhora “sente” depressão? Aí eu falei pra ele: doutor, isso aí passa longe, acho mesmo que eu nem sei o que é tristeza.

Sua resposta me encheu de amor, vergonha e admiração. Me percebi numa inversão de papéis. Vergonha da minha primeira impressão, por julgá-la tão frágil: “que fofinha, será que tem medo de avião?” Ela é que poderia olhar para mim, sem ventre parido, marido partido, bisneto importado e uma vida de interior nas costas e pensar: “que fofinha. Será que ela tem medo da vida?”

Sem romantizar a velhice, afirmo a necessidade de resgatarmos a resiliência como medida de saúde integral. Com certeza Eva experimentou angústias e tristezas momentâneas. Porém sua fala ilustra traços saudáveis que têm a ver com a sua relação com o tempo. Em nossa conversa captei 2 exemplos desta relação:

– Respeitar o tempo das coisas, mesmo com muito a ser feito. (Eva só tirou o celular do modo avião quando aterrissamos, enquanto eu reconectei como uma viciada assim que o chão parecia próximo o suficiente).

– Silenciar a mente mesmo com ruídos ao redor (Ela faz suas orações todas as manhãs, antes da família acordar e assim “se estressa muito menos” durante o dia).

Precisamos da sabedoria das gerações da calma, da reflexão, do cházinho para dor, da oração, da natural higiene do sono, da valorização do que já se tem. Conservar mais e descartar menos, não desejar tudo ao mesmo tempo. Nem tudo o que citei é geracional. Porém a relação intergeracional é riquíssima para percebermos e buscarmos esta recalibragem do nosso tempo interno. Evas também precisam de nós para traduzirmos o ritmo do novo mundo, novas idéias, libertação de padrões e preconceitos, novos direitos. De fato, o mundo anda rápido.

Mas as gerações de transição, como a minha, que viram a internet nascer e cresceram com a rapidez da sua evolução, estão sedentas por uma homeostase entre a tecnologia e o tempo da natureza. Nosso sistema nervoso não teve tempo biológico de adaptação, pois a mudança ambiental e cultural vivida com o advento tecnológico foi rápida demais (há poucas décadas, seu corpo não estava sendo atravessado por várias redes de Wifi como está neste momento). Ansiedade, estresse, depressão, burnout, são questões paralelamente alimentadas por um ritmo artificial performático que nem sempre dança com o ritmo natural dos nossos corpos. Não é excesso de trabalho, é excesso de oferta, informação e pouco discernimento para prioridades.

Se a tecnologia está a favor da vida, tudo que nos rouba vida, não parece uma ideia tão genial. Precisamos estar atentos a isso. E o povo da era do telefone com fio pode nos ajudar com o passo mais orgânico. Nós, podemos ajudá-los a compreender as facilidades do mundo contemporâneo. E nesta troca, todo mundo ganha um pouco do que lhes falta. E todo mundo fica mais forte.

Talvez assim ampliemos nossa qualidade de vida, não só nossa expectativa de vida.
Se você tem avós, observe-os. Se você tem netos, observe-os. Na humildade das nossas expertises geracionais, caminhamos juntos como nunca antes.

Obrigada Eva.

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