O homem mais importante do mundo

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Criador

Por Isa Bernsteinn

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Alguns de nós tem a sorte de acordar com a serenidade do saber que o dia de alguém por aí vai ser um pouco melhor porque você acordou.

Café, jornal, dente, uma volta no quarteirão com o cachorro e por último—a ordem do resto muda todo dia, mas esse sempre é o último—uma olhada no cabelo no espelho que fica atrás da porta.

Eu não percebo sempre que vou cantarolando no metrô: vinte um minutos e seis músicas depois, ele já chegou na estação e o tempo passou em um piscar de olhos. Ando até o salão sorrindo, e isso percebo sempre, mesmo quando chega lá com saudade da cama. Entrar por aquela porta, verde e pesada, é como entrar em casa. O ar frio que acorda calafrios na pele, o cheiro de shampoo de coco, de lavanda, baunilha, laranja com uma pitada de tratamento químico.

O cheiro forte o lembra das tardes passadas em poltronas vermelhas, sempre na segunda semana do mês, esperando sua mãe fazer o cabelo. Depois que ele nasceu, ela cortou as madeixas castanhas e trocou por um ruivo sútil na altura do ombro, fácil de cuidar. Uma vez por mês, sem falta, íamos até o salão na cidade. Eu levava sempre uma mochila estufada com uma pilha de gibis, cubos mágicos ou quaisquer fossem os brinquedos da idade.

Além do cheiro de salão, lembro de como o rosto da minha mãe sempre saia dali com um sorriso estampado. Eu costumava pensar que a cabeleireira fazia algum procedimento secreto entre os cortes da tesoura, algo por dentro que eu não conseguia ver mas que me devolvia uma mãe um pouco mais leve, um pouco mais ela.

Aos treze eu já ficava sozinho em casa, mas continuei a acompanhá-la todo mês. Levava minha mochila nas costas e sem nem perceber a deixava em canto qualquer fechada, intocada pelas três horas que passávamos ali. Naquela idade eu já me fascinava em assistir as pessoas nas cadeiras giratórias e seus reflexos pensativos, satisfeitos, renovados no espelho.

Não lembro quando me apaixonei por isso nem quando percebi que havia me apaixonado. O que lembro é o cheiro forte de salão, as luzes brancas fosforescentes, e os sorrisos.

O meu salão é menor, com luzes mais puxadas pro amarelo–mas o cheiro e os sorrisos são os mesmos. Hoje é um dia como qualquer outro.

Começo a manhã com um corte rápido para a moça loira que tem aquele pixie que eu conheço como ninguém. Esse é seu corte há cinquenta anos e sou eu quem o faço há quase vinte e três. Sua filha teve bebê, ela me conta, e ela quer estar impecável para a comemoração de um mês da neta.

Depois veio um universitário desajeitado me pedir para esconder suas entradas. Tentei acalmá-lo com anedotas de clientes, clientes que fizeram as pazes com sua testa ou com o rosto todo, rasparam logo tudo de uma vez. Gosto de viver na ilusão motivacional de papos

como esse, mas a verdade é que só a visão do resultado final no espelho o fez parar de prender a respiração.

Antes do almoço, a jovem que muda de cor a cada dois meses (estamos quase finalizando o arco-íris), o cara que termina e volta com a namorada e corta mais um pouco a cada vez (está quase careca), e a menina de cabelos encaracolados, sempre no colo da mãe que está determinada a proteger cada um dos cachinhos da filha.

Chega a adolescente que vem sozinha, nova mas sem o pai nem a mãe. Seus cabelos são longos mas estão presos, e ela me conta que não consegue parar de arrancá-los. Ela pesquisou na internet, conta, acha que tem uma coisa chamada tricotilomania. Quando sai dali, os cabelos estão com metade do comprimento e o peso em seus ombros pelo menos um pouco mais leve. Têm a menina, preta, cuja madrasta, branca, diz que gastar dinheiro com corte é desperdício e corta ela mesma os cabelos majestosos e volumosos de todos os seus enteados. Cortava–agora a menina vem aqui e, na cadeira da nossa especialista em black power, recebe simultaneamente um corte e uma aula de como cortar os dos irmãos. Eu sempre tento não marcar nada nesse horário, e assistir a aula também. Depois vem um grande amigo meu, que começou como um cliente perdido sem saber como lidar com a perda de cabelo causada pelo câncer. Agora corto seus fios na altura da orelha, escuto sobre a apresentação de dança de sua filha, brinco sobre como já podemos fazer uma maria-chiquinha.

Hoje é um dia como qualquer outro no trabalho.

Volto para casa cantarolando no metrô, ando com o cachorro mais uma vez. Eu vou dormir me sentindo o homem mais importante do mundo.

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