Era como se estivesse diante do abismo que Nietzsche descreveu, um abismo que também olhava de volta para mim.

Em uma manhã de maio de 2021, me deparei com uma realidade que iria desafiar as profundezas da minha alma, uma realidade que me faria navegar pelos mares turbulentos da dor, mas também da superação. A infectologista, com uma precisão que cortava como aço, não suavizou suas palavras: "O corpo do seu marido é obeso e portanto é um corpo inflamado. Isso o coloca em condições mínimas de sobrevivência". Essas palavras, carregadas de um peso devastador, marcaram o início de uma jornada épica para mim.

Data

Criador

Maressa Souza

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Em uma manhã de maio de 2021, me deparei com uma realidade que iria desafiar as profundezas da minha alma, uma realidade que me faria navegar pelos mares turbulentos da dor, mas também da superação. A infectologista, com uma precisão que cortava como aço, não suavizou suas palavras: “O corpo do seu marido é obeso e portanto é um corpo inflamado. Isso o coloca em condições mínimas de sobrevivência”. Essas palavras, carregadas de um peso devastador, marcaram o início de uma jornada épica para mim.

Matheus, meu companheiro de vida, estava travando uma batalha titânica contra a segunda onda de COVID-19, uma batalha que, em um abrir e fechar de olhos, se transformou de uma simples indisposição para uma internação de emergência, culminando na intubação. Duas semanas e meia depois, a batalha foi perdida; Matheus partiu aos 38 anos, me deixando junto com nosso filho Ben, um menino de quatro anos com autismo não verbal, em um mundo que, de repente, parecia ter perdido seu sol.

Diante da imensidão da perda, me vi confrontada com questionamentos que mergulhavam nas profundezas do ser: “Por que comigo? Por que meu filho se tornou órfão tão cedo?” Era como se estivesse diante do abismo que Nietzsche descreveu, um abismo que também olhava de volta para mim. Mas foi nesse abismo que encontrei uma centelha de luz, um caminho que transcenderia a lógica e a razão.

Adotando a filosofia do “um dia de cada vez”, dos ensinamentos estoicos de viver o presente sem se deixar dominar pelas preocupações do futuro ou dores do passado, comecei a tecer os fios de uma nova existência. Mantive a estabilidade para o Ben, mantendo a rotina dele na mesma casa e criando um santuário de amor. Um farol de constância em um mar de incertezas. Esse processo de cura e reorganização, embora árduo, abriu caminho para que eu cuidasse da minha própria alma, buscando terapia e força nas raízes da minha infância simples e resiliente.

Foi nesse cenário, entre os escombros da perda e os primeiros passos rumo à reconstrução, que Rodrigo entrou na minha vida e do Ben. Rodrigo, com sua própria jornada de superação como filho adotivo, trouxe uma nova dimensão de amor e compreensão. Ele se conectou com Ben de maneira quase transcendental, um encontro de almas que lembra a conexão mística descrita por Platão, onde almas reconhecem sua contraparte em um mundo de sombras.

A relação entre Rodrigo e Ben floresceu, uma tapeçaria tecida com fios de amor incondicional e aceitação, culminando no momento em que Ben chamou Rodrigo de “papai” pela primeira vez. Foi um momento carregado de significado, um testemunho do poder do amor de escolher, transcender e curar. A história deles é um lembrete vibrante de que, nas palavras de Victor Hugo, “Para amar alguém, precisamos amar o universo inteiro, pois o amor é uma luz que nunca se apaga na escuridão”.

Entendi que minha jornada se tornou, pelo menos para mim, um épico moderno de dor, amor e superação. Me ensinou que, mesmo nas profundezas do desespero, há espaço para o amor renascer e florescer de maneiras inesperadas. É uma história e  testemunho da resiliência humana, da capacidade de enfrentar a adversidade, encontrar força na vulnerabilidade e redescobrir o amor. A vida, com todas as suas tempestades e calmarias, é uma dádiva preciosa, e reconhecer o valor desse presente nos transforma em protagonistas de nossa própria história, uma história onde o amor é a força mais poderosa e redentora.

SOBRE MIM 

Maressa Souza, jornalista, mãe do Ben. Uma mulher inquieta e em constante busca por uma mundo mais inclusivo e justo. Faço das minhas lutas, oportunidades de transcendência. Enxergo a experiência humana como uma chance de encontrar o sentido e significado que trazem respostas à nossa alma.  Na caminhada, se possível de pés descalços, me refaço e reconstruo. Cresci querendo chegar ao destino. Mas depois que amadureci entendi que o destino é uma utopia. A vida está no hoje e no agora. Porém a vida se encontra no SER e não apenas no EXISTIR.

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