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Guga Liuzzi :: Ep.02

Do seu atelier em Lisboa, o artista Guga Liuzzi traduz o que pensa e o que sente em forma de pintura, desenho e ilustração. Sua mente inquieta e espírito questionador buscam inverter o status quo daquilo que se conhece como 'tradicional' na forma de aprender e ensinar. Por falar em ensinar, Guga se considera um 'eterno aprendiz', em suas próprias palavras, tanto das suas habilidades, quanto da forma de enxergar o mundo. A mente de Guga parece caminhar em uma outra frequência, buscando possibilidades em tudo que vê, falar daquilo que raramente se fala, e provocar, de forma inteligente o que estamos acostumados a assumir como verdade.

Data

Criador

Interviewer: Pedro Pirim

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20 minutes
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Gustavo Liuzzi, artista plástico de 39 anos, recebe Pedro Pirim em seu ateliê em Lisboa. Pedro começa a entrevista comentando sobre a paixão com a qual percebe Guga falando de sua arte e enfatizando que o propósito da Voz Futura é exatamente contar histórias de pessoas “normais”, que tendem a não sair na mídia tradicional, e das coisas que as movem e inspiram. A paixão de Guga exemplifica exatamente o poder das histórias que a Voz quer contar, e isto fica claro desde o segundo em que ele começa a contar sua história. 

A arte e o Guga sempre andaram juntos. Seu pai é designer gráfico e sua família toda sempre teve inclinação artística, então não foi surpresa alguma quando, ainda novo, ele já adorava desenhar e era conhecido na turma por isso, o que acabou o incentivando a continuar. Começou a trabalhar cedo, por volta dos quinze anos, em um estúdio, e aos dezoito conseguiu um trabalho na diagramação da revista de uma escola, mentindo ao diretor que já havia o feito antes. Guga mostra seu trabalho no design de algumas revistas para Pedro. 

Guga define a escola como uma vontade constante de fazer outras coisas. Ele tem poucas memórias positivas na escola, resgatando talvez momentos no maternal onde ainda conseguia se sentir feliz ali dentro. Pouco depois, a escola já se tornava maçante e cansativa, e Guga descreve como tudo ali o deixava desconfortável, como o cheiro “de coisa guardada”, a textura das paredes e a maneira como visavam o ensinar. O aprendizado parecia “fechado”, focado em ensinar o que conteúdo que cairia na prova ao invés de incentivar a imaginação e curiosidade.

Após Guga recontar um pouco de sua longa batalha com a escola, Pedro questiona o que ele sugeriria para mudar esse sistema e Guga conta suas próprias estratégias de ensino para ilustrar sua resposta. Hoje, ele é professor de tipografia e procura oferecer uma instrução mais interessante e intrigante aos seus alunos. Ao ensinar composição gráfica, Guga tenta dar aulas dinâmicas e que não sejam focadas na instrução meticulosa de cada habilidade necessária para tipografar o alfabeto e criar fontes; ao invés disso, ele usa as motivações por trás do desejo de aprender aquelas habilidades como ponto de partida. Assim, ele inverte o processo:o interesse e a curiosidade vem antes e a partir dela o aluno procura desenvolver as habilidades necessárias. Guga conta também que apesar da maior parte de quem procura aprender tipografia ser de designers, muitos vem pela curiosidade e intriga com o assunto.

 

O quadro tem um aspecto sóbrio, no sentido de que parece uma composição realista, impressionista clássica, não tem nada que se diferencie muito… a não ser uma leoa vermelha deitada no sofá. Aí eu acho que vem uma parte de simbolismo que vai vindo aos pouquinhos conforme eu estou pintando, a mente vai entrando nesse mundo. É quase como se fosse um lugar meditativo.

Photo: Felipe Cantieri

Durante a entrevista, Guga mostra para Pedro alguns de seus quadros, contando um pouco sobre o processo por trás deles. Ele reflete também sobre a arte enquanto ferramenta de comunicação, facilitando que opiniões talvez não tão aceitas em certas épocas da história fossem expressas. Guga diz que sua arte não é “arte política”, mas reconhece que inevitavelmente reflete tantos dos seus valores e do que ele acredita. Ele observa como cada obra é completamente específica ao contexto em que foi produzida e conta que quadros são algo relativamente novo para ele, que só começou a pintar há três anos. Antes, Guga fazia principalmente murais, e ele conta para Pedro sobre sua relação com o grafite—foi um dos pioneiros da arte no Rio da Janeiro no começo dos anos 2000, quando começou a se popularizar na cidade.

O que importa de verdade para Guga sobre qualquer arte que produz é o tempo que aquilo vai sobreviver e a exposição; o tamanho vai de rabiscos em seu caderno até murais que ocupam prédios inteiros, e, para Guga, a dimensão não faz diferença de verdade. O processo de encontrar sua voz teve muitas fases, mas ele chegou à conclusão de que um dos aspectos mais fenomenais de ser artista é o alcance que aquelas obras podem ter e conversas que consequentemente podem iniciar. Ele conta que gosta e aprecia muito ouvir opiniões das pessoas sobre sua arte. 

Guga compartilha suas reflexões sobre equilíbrio a partir dos conceitos de ying e yang enquanto mostra uma flor para Pedro, contando como às vezes categorizar as coisas nos ajuda à entendê-las e equilibrá-las melhor. 

Para Guga, um grande problema da atualidade é a falta de pensamento crítico, mas ele acredita que isso é algo que se pode ensinar. Por último, ele defende que isso deveria ser parte fundamental do ensino básico para que assim os alunos se tornassem indivíduos confiantes e seguros de si, sem medo de ir contra o fluxo ou de se destacar diante dos outros—assim como fica claro, pelo jeito envolvido que fala que sobre as coisas que ama e a confiança contida com a qual discute sua arte, que é o próprio Guga Liuzzi.

A escola foi uma guerra. Eu nunca me dei bem com a escola, eu acho. Eu não lembro de uma fase boa na escola. O maternal, ali, até aprender a escrever, eu tenho boas memórias. A partir dali, era sempre isso, uma vontade de fazer outras coisas.

Photo: Felipe Cantieri

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